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Urbanismo, identidade cultural e meio-ambiente

domingo, 18 de abril de 2010

O texto abaixo foi comentado neste texto de Aderbal Machado: Afrontas ao urbanismo e ao meio-ambiente (clique e leia). Aqui ele foi expandido:

Urbanidade, sim

Sou super a favor do progresso, afinal quem não gosta de andar por uma rua asfaltada, e quem não gosta de morar sob um teto confortável? Quem não gosta de caminhar em uma praia/espaço urbanizado e organizado? Sim, progresso e desenvolvimento, renda e riqueza, como itens que promovem a qualidade de vida de uma população são valores muito desejados e plenamente dignos de se almejar.

A arquitetura e o urbanismo sempre esteviveram atrelados ao progresso e à construção da qualidade de vida para os homens, desde que egípcios, gregos, e depois romanos, iniciaram o desenvolvimento urbano de suas regiões através do manejo das pedras para a construção de seus prédios públicos, ruas e aquedutos.

Era uma vez, a identidade cultural

O que acontecia de uns 40 anos para trás até o início das civilizações, era que toda região se desenvolvia arquitetonicamente, e esse desenvolvimento, através de suas obras, contribuía para a criação de uma identidade cultural. Todas aquelas formas, técnicas e materiais constituiam juntos a identidade material de um povo. Assim foi até mais ou menos a década de 60/70.

Trazendo essa discussão para Santa Catarina, não é difícil encontrar fortes traços da identidade açoriana pelas cidades do litoral. Na rua Blumenau de Itajaí, por exemplo, com suas casinhas antigas da ainda recente década de 70, já mal cuidadas, condenadas a desaparecerem, existe toda uma riqueza magnífica. Se o poder público se interessasse e promovesse o restauro de todas aquelas casinhas simples mas tão repletas de detalhes típicos, a rua bem poderia se chamar algo como Alamêda Açoriana. Se tornaria um ponto de passeio turístico. Ali está todo um modo de vida de um povo que ajudou a construir o local onde vivemos hoje. Mas isso é só um devaneio. Aquilo tudo, creio eu, está condenado e deverá ser incorporado pelo porto nos próximos anos.

Balneário Camboriú, como outro exemplo aqui próximo, está se tornando uma cidade esquisita. Faz tempo que a cidade perdeu seu gostoso clima praiano para uma arquitetura típica peculiar constituída por um mar de prédios padronizados, muito altos, tão próximos entre si. Isso quando seus arquitetos não decidem implementar na fachada itens e formas totalmente desprovidas de identidade, ou minimamente de um sentido, enfim, fachadas de um péssimo (ou inexistente) gosto. Na questão urbana, há ruas que mal “veem” a luz do sol, apertadas, claustrofóbicas. Onde está aquele tranquilo vilarejo praiano, os pescadores com sua rotina atemporal, as casas de veraneio?

Agora, está tudo igual

O que observamos atualmente, é que todo o Estado,  porque não, o país, está padronizando suas construções. Está tudo muito padronizado, hermético, pasteurizado, e … (coloque nos pontinhos o adjetivo de sua preferência para algo sem graça). Os ricos de hoje constroem casas americanizadas. Nós, os brasileiros, por mais que neguemos, não perdemos nossa alma de colonizados. Antes importávamos o estilo de nossas metrópoles européias, como Portugal, Itália ou Alemanha. Mas tudo bem, já que nossos antepassados vieram de lá mesmo. Agora só mudamos de metrópole. Na ânsia pelo status, desprovidos de qualquer conhecimento cultural, assimilamos o que estiver disponível. O importante é parecer bem. Maldito status!

Um exemplo positivo, neste sentido, é o empreendimento da Embraed, o Centro Empresarial Embraed, no centro de Itajaí. Com uma linha arquitetônica de muito bom gosto em um estilo neo-clássico, se não me engano, enriqueceu deveras o centro da cidade. Esta mesma empresa tem alguns prédios mais recentes em Balneário Camboriú também muito bem pensados, do ponto de vista do estilo arquitetônico. Os arquitetos da empresa estão de parabéns. E a propósito, não tenho nenhum vínculo com a empresa e nem recebi nada por essa citação. É que penso que o que é bom gosto deve ser elogiado.

Pelo nosso bem, ou pelos nossos bens?

Os empreendedores, principalmente construtores, tão capazes de construir, e o poder público municipal, tão ávidos pelo progresso, são tão incapazes de enxergar um pouquinho além e ver que nem tudo é ferro, concreto e dinheiro. Há uma coletividade que demanda tudo isso. Há um ambiente em volta, o qual influencia diretamente na qualidade de algo que diz respeito a todos, que é a nossa vida, a vida da coletividade. Em pleno século XXI, em que tantos estudos apontam os melhores caminhos e as melhores práticas, ainda seguem tocando obras como se estivessem nos anos 80. Não perceberam que o mundo mudou, que se achar dono do mundo está completamente démodé. A empresa que merece ser verdadeiramente reconhecida é aquela que age pela comunidade, e não aquela que age só pelos seus clientes. Eu sei, eu sei, mais um devaneio, mas não sou só eu, há um comercial na TV pregando NÃO o melhor negócio do mundo, mas o melhor negócio PRO mundo e meu lado idealista gostou da idéia. Da mesma forma, o governo que quiser ser lembrado e reconhecido, é aquele que ache pelo bem comum, e não pelos seus próprios bens.

Meio ambiente

Empreendedores de várias cidades catarinenses ficaram (e estão ficando) todos muito ricos, com dinheiro caindo dos bolsos. Ótimo, resultado certamente de muito trabalho e muita luta. Mas encheram os bolsos de dinheiro, e esquecem de encher a mente com um pensamento contemporâneo. Meu pessimismo não deixa convencer-me que a maioria dos construtores daqui da região seja capaz de pegar um livro dos melhores pensadores contemporâneos para situarem suas realizações no século 21, e não na década de 80/90, quando começaram a construir suas riquezas (e eu torço MESMO para estar errado nesse julgamento, no entanto, com o que se vê, com obras atropelando as leis, o bom senso, etc,…).

Dois ótimos livros como sugestão, a quem interessar possa: Capital Espiritual (não é livro esotérico) e A Arquitetura da Felicidade

Os tempos são outros, as idéias evoluíram, as prioridades sociais se modificaram, e dentre elas, a idéia de que não basta combater a fome no mundo. Essa idéia evoluiu. Hoje qualquer cidadão comum entende que precisamos é aprender, finalmente, depois de 5 milênios de civilização, a andarmos lado a lado com a natureza, e não mais subjugá-la, como viemos fazendo até então. Os estudiosos entendem que o melhor meio de combater a fome é integrar o ser humano à natureza, e preservá-la, e tirar dela o sustento, e não tirá-la da superfície do planeta.

Confesso que não creio muito nessa história de aquescimento global antropogênico. A natureza tem ciclos próprios que trancendem a nossa ainda recente civilização, se a situarmos numa escala de tempo planetária. Mas nem que o mundo estivesse se congelando, ao invés de esquentando, seria motivo para ignorarmos a verdadeira responsabilidade que temos com aquele que é a base de nossa existência, a natureza e nosso meio ambiente.

Resumindo, o que os dois livros citados acima defendem é a tese de se FAZER A COISA CERTA e não fazer a coisa certa pelos nossos bolsos. Eu sei, eu sei, mais um devaneio.

Quem sabe seja assim mesmo

Pois é, quem sabe seja assim mesmo que as coisas caminham. Quando se construiu as primeiras casas, ninguém pensava em identidade cultural, ou em preservação ambiental. O que queriam era escapar da chuva. Por outro lado podemos questionar: Será que precisa ser daquele jeito, ainda hoje, em pleno 2010?

É difícil saber qual é o caminho correto. Se o da eficiência máxima à custa de valores humanos? Se o da priorização dos valores humanos às custas de menos progresso? Talvez um meio termo?

Fica registrada a minha opinião. Continuo achando que nem tudo são concreto, ferro e dinheiro. Dinheiro não compra vida. Vida se desenvolve com valores humanos. E valores aqui são planejamento, espaço, bom senso, empatia, razoabilidade, natureza, arte, cultura…

Política não é brincadeira

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Em cidades como Porto Alegre, Florianópolis ocorre um fenômeno peculiar no comportamento dos torcedores dos times das respectivas cidades. Por exemplo em Porto Alegre, onde há dois times principais, Grêmio e Internacional, quando um deles sai de um determinado campeonato, seus respectivos torcedores torcem com toda a força para que o time que ficou competindo perca também. Tudo bem! É um esporte em que via de regra os torcedores não ganham nem perdem nada de valor com as vitórias ou derrotas de seus times. Torcer contra um time da própria cidade é até compreensível, embora ainda questionável, mas enfim.

Agora esse fenômeno ocorre também na política e revela um traço relativamente infantil dos eleitores. Em Balneário Camboriú observo com nitidez. Com a vitória de Edson Piriquito para prefeito, uma certa parcela de toda aquela patota acostumada ao poder por décadas torce com toda a força para que o governo do Piriquito dê errado em tudo o que for possível. E desconfio que essa “parcela” dos partidários dos derrotados nas eleições não seja muito pequena não.

Há uma citação de teólogo americano James Clarke com a qual aprendi a entender O QUE É POLÍTICA de verdade, e  a qual me serve de critério para essas considerações que ora exponho.

Um político pensa na próxima eleição. Um estadista, na próxima geração.

Esse pensamento pode ser expandido em vários sentidos e um deles certamente seria a diferenciação entre o político íntegro e o politiqueiro. Eu diria que o politiqueiro pensa só em si mesmo. Governa para si e se por acaso o povo vier a ser beneficiado com suas ações, sorte do povo. Já o político íntegro – espécie raríssima por aqui – pensa em sua comunidade, em sua cidade, pensa nas pessoas para as quais ele obteve o desígnio de conduzir.

E é essa a diferença que percebo que a comunidade de Balneário Camboriú – e certamente de muitas e muitas outras cidades – não consegue distinguir. Política não é esporte. Política não é brincadeira nem entretenimento. Em política você só torce por um único time – PARA A SUA COMUNIDADE!

Se o governo atual falhar, pode ganhar o seu partido, mas perde a cidade, perdem os indivíduos. Colocar o bem comum acima de interesses particulares / partidários deveria ser o mínimo para um cidadão se dizer consciente.

Obs.: Creio poder falar da política de Balneário Camboriú com isenção, afinal voto em Itajaí. E tenha certeza, definitivamente, eu torço por nossa região e não por esse ou aquele grupo.

Ronaud Pereira

Temporada pra quê?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Toda a temporada é a mesma ladainha. “Cadê os turistas?”, “Cadê o dinheiro?”, “Tá fraco!!!”, “Essa chuva maldita”, “Os turistas só comem sanduíches tem pouco poder aquisitivo, etc. É assim, chega o verão e com ele as repetidas reclamações dos comerciantes. Colocam a culpa em tudo, mas não conseguem rever seus conceitos.

Com todo o respeito, creio que os comerciantes de Balneário Camboriú não observam o fenômeno da temporada de verão com isenção. Temporada, vamos falar a verdade, não serve pra nada. É preciso se preparar para crescer durante o ano inteiro e então somente “aproveitar” o fluxo de virada de ano, só! Se não for viável então é melhor fechar as portas.

Trabalho com internet com vários sites relacionados ao turismo e o que observo que a maior parte das pessoas que “procuram” por informações relacionadas a BC no Google (provavelmente para vir pra cá) são nossos vizinhos de Blumenau, Joinville e interior. A proporção de paranaenses e gaúchos e mesmo paulistas, que vem pra cá é considerável, mas aquém da expectativa dos comerciantes. Não se pode esperar “faturar” só com eles pro ano inteiro. Muito menos com os gringos que por tantos que sejam, são muito poucos, proporcionalmente e reconhecidamente com baixo poder aquisitivo.

Em sendo você comerciante de cidade com fluxos sazonais de turistas, priorize ainda assim o morador, seu vizinho. É ele que sustenta o seu comércio durante o ano inteiro e merece prioridade. Os turistas devem sim ser muito bem tratados, mas como uma espécie de “bonificação” anual nos lucros e não como os salvadores da pátria. Trabalhe como se não houvesse temporada e então sim verá as coisas sob um viés mais realista e razoável. Se preparar para a temporada é muito válido e fundamental, mas ESPERAR pela temporada não vai ajudar em nada.

Vejo muita esperança e pouca razão, e ainda, pouca iniciativa. Não dá para abrir a porta e esperar que “venham”. Não é bobagem da minha cabeça, afinal já é clichê no mundo corporativo o fato de ser você quem tem que ir atrás do cliente. Ainda assim, quando o prefeito Edson Piriquito vem com algumas iniciativas relacionadas a eventos, ramo no qual a cidade deixa a desejar, é alvejado com críticas. Essas iniciativas otimizam sim o fluxo de turistas e favorecem a toda a cidade, contudo, de qualquer forma, não espere “ficar rico” só com os turistas.

Ronaud Pereira